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JOSÉ ANTÔNIO DA SILVA – A Vida não basta

 

Trecho do catálogo da exposição JOSÉ ANTÔNIO DA SILVA – A Vida não basta, que acontece de 11.2.2017 a 13.4.2017 na Galeria Almeida e Dale com curadoria de Denise Mattar.

 

José Antônio da Silva

Sem título, 1956
Óleo sobre tela
69 x 99 cm
Coleção Vilma Eid – São Paulo-SP


 

 

 A arte existe porque a vida não basta

 Ferreira Gullar

 

O escritor e poeta Ferreira Gullar definia a existência da Arte como uma necessidade interna do ser humano. A história confirma a afirmação, pois a arte pode ser encontrada em todas as sociedades, das mais primitivas às mais sofisticadas e da Idade da Pedra até o século 21. Olhando desse ponto de vista tornam-se estéreis as discussões sobre os limites entre arte erudita e arte popular, muito mais afeitas a distinções de classe do que a diferenças reais.

 

José Antônio da Silva é um dos mais arrematados exemplos da pertinência da afirmação de Gullar, da existência de um imperativo absoluto para o surgimento da arte. A Vida realmente não bastava para ele, Silva não cabia nela, precisava de mais, e ele percebia isso: “Confesso que sou artista puro e verdadeiro. Sou criador e tenho de pintar o mundo, goste ou não goste. Sinto a minha alma mexer dentro de mim”.[1] A afirmação remete imediatamente à conhecida interpelação de Rainer Maria Rilke ao jovem que queria ser poeta:

 

“Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria, caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto, pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples ‘Preciso’, então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso”.[2]

 

José Antônio da Silva nasceu, em 1909, na cidade de Sales Oliveira, próxima a Ribeirão Preto, no interior do estado de São Paulo. De origem humilde, assim como seus familiares, teve pouquíssima formação escolar. Foi trabalhador rural por vários anos, praticando diversas atividades agropastoris, como cortador de cana e boiadeiro. Casou-se aos 21 anos e, em busca de meios para o seu sustento e de sua família, mudou-se, nos anos 1930, para São José do Rio Preto, fazendo então todo tipo de serviço, de coveiro a pedreiro, de carroceiro a porteiro de hotel. Apesar de estar sempre às voltas com a sua sobrevivência, desde cedo conviveu com uma necessidade imperiosa de desenhar, o que lhe causou muitos problemas:

 

“(...) quando eu era criança, que me entendia por gente, eu já desenhava nas folhas de café e riscava na areia. Então, eu ia a Mirassol, ia ao Bálsamo, pedia papelões, trazia caixas de papelão na cabeça e forrei toda a parede de desenho. Todo mundo dizia que eu tava ficando louco. Até meus parentes me abandonaram, não puseram mais os pés na minha casa. Quando me viam, faziam o pelo-sinal da Santa Cruz... Os colonos ficaram com medo de mim. Diziam que eu tinha parte com o diabo. E, então, de duas fazendas eu fui despedido, devido a essas coisas... Um dia, lá no rancho, apareceu um senhor que estava consertando máquina e, quando viu aqueles desenhos bonitos, ele me disse: ‘Olha, o senhor está perdendo tempo, vá para São Paulo, que isso tem valor’. Então, eu, contente, alegre, cheio de alegria porque tinha recebido aquele incentivo daquele homem, então eu disse pra ela. Venha vê Rosa, olha que beleza que eu fiz! Olha quantos desenhos!”[3]

 

Segundo Silva, dona Rosinha, sua esposa, não gostou nada dessa conversa e disse que ele estava virando vagabundo...

 

A grande virada na vida de José Antônio da Silva ocorreu em 1946, num episódio conhecido, que, entretanto, merece ser recontado. Naquele ano, ele, sua mulher e os seis filhos viviam em apenas um cômodo, abrigados pelo setor assistencial do Centro Espírita Allan Kardec, no bairro da Boa Vista, em São José do Rio Preto.[4] Segundo o próprio Silva, ele ficou sabendo pelo rádio de um concurso de pintura, a ser realizado para a inauguração da Casa de Cultura de São José do Rio Preto. À revelia da esposa resolveu participar, e como não tinha dinheiro para telas, comprou alguns metros de flanela e mandou esticar. Sua inscrição só não foi recusada porque o concurso era aberto, mas os organizadores não aprovaram nem um pouco a inclusão de suas obras.

 

A criação de casas de cultura no interior do estado de São Paulo fazia parte de um projeto de expansão cultural capitaneado pela Associação Brasileira de Escritores, entidade da qual faziam parte os críticos Lourival Gomes Machado e Paulo Mendes de Almeida, e o filósofo João Cruz Costa. Os três viajaram a São José do Rio Preto, para participar da cerimônia de inauguração da Casa de Cultura, e lá foram convidados a integrar o júri do concurso de pinturas. As obras, previsivelmente acadêmicas, eram produzidas por Malagoli, o pintor da cidade e seus discípulos.[5] No meio delas os trabalhos de José Antônio da Silva chamaram a atenção de Paulo Mendes de Almeida[6], cuja opinião foi logo compartilhada por Lourival e Cruz Costa. Antes do julgamento, os críticos realizaram uma palestra sobre o modernismo para uma plateia hostil. Arguidos sobre os melhores trabalhos da exposição, eles indicaram os trabalhos de Silva, que estava presente e imediatamente se apresentou. Foi uma consternação! À noite, eles foram procurados por uma comissão insistindo que a cidade iria considerar o prêmio a Silva como um deboche. Diante  disso, os três não puderam, como pretendiam, dar a ele o primeiro prêmio. Silva ficou apenas com o quarto lugar, mas estava “descoberto”. Em 1948, foi convidado a realizar uma exposição na refinada Galeria Domus, em São Paulo, na qual o então todo-poderoso Pietro Maria Bardi, diretor do Masp, comprou dez obras.

 

A partir daí Silva, passou a circular entre dois mundos quase antagônicos: o do seu cotidiano rude, no qual era visto como louco, e o sofisticado mundo das artes plásticas, no qual era incensado como gênio. Dessa maneira, se para ele a realidade já escorregava facilmente para a fantasia, a dicotomia potencializa essa dinâmica e ele passa a borrar as fronteiras, “fazendo instintivamente de sua existência arte e de sua arte, vida”.[7] No seu livro sobre o artista, Romildo Sant’Anna vai ao âmago dessa questão, fulcral para o entendimento da obra de Silva:

 

“Ele não liga por não estar exprimindo verdades comumente aceitas, (...) correlaciona fatos inventados e mágicos, em incessante prospecção de experiências vividas, com auxílio da fértil imaginação. Não raro o misterioso e o mágico participam do seu pensamento, e se refletem na sua obra, com uma naturalidade que chega a ser chocante, se posta em confronto com o sistema lógico desenvolvido pela sociedade culta, e à qual, via de regra forçosamente se dirigirá a sua obra”.[8]

 

Participando das mais importantes exposições nacionais e internacionais, e visitando museus e bienais levado pelos críticos, Silva recebe uma avalanche de informações que devora e digere como pode, num processo antropofágico. Ele conhece, e se reconhece, nas obras de Van Gogh e Picasso e passa a se considerar um gênio – comparável a eles. Sua compulsão natural, quase uma combustão, leva-o a pintar cada vez mais, e a produzir tanto que, em um certo momento, ele passa a ser rejeitado pela crítica. Agora, se a permanente oscilação do circuito de arte já é de difícil entendimento para quem faz parte dele, imagine-se para uma pessoa inculta como Silva, elevada de repente a patamares nunca pensados. Não por acaso, furioso por ter seus trabalhos recusados pela IX Bienal de São Paulo, Silva matou todo o júri... numa série de telas. A ação resgata o pensamento mágico que permeava a arte no seu surgimento, lembrando os caçadores de Lascaux, que matavam seus bisões nas paredes das cavernas.

 

Olívio Tavares de Araújo, em livro sobre o artista, reflete sobre a persona criada por Silva, recorrendo ao famoso poema de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente”. Romildo Sant’Anna reitera, em outra clave, a mesma observação:

 

“Silva é um fogo que se expande por vários rincões, aparentemente inapagável em sua pluralidade. Fala, recita, profetiza, canta, sobrepassando os apartes dos interlocutores, exceção feita a certos momentos que aproveita para, com meneios de cabeça e satisfação facial, dar razão, concordar sobre uma ou outra exclamação e comentário que ele considera mais elogioso e pertinente, sobre sua coragem, inteligência, multiplicidade e potencial criativo”.[9]

 

A trajetória artística de Silva pode ser dividida em algumas fases, a título de um melhor entendimento do público, mas essa ordenação trata-se, na realidade, de um esforço crítico que não necessariamente reflete a produção do artista, tumultuosa e nascida aos borbotões. Silva interessava-se por um tema e o dissecava à exaustão, partindo depois para outro. Da mesma maneira, quando  descobria um novo procedimento pictórico, ele o aplicava a tudo o que estava pintando, até se interessar por outro. Mas esse abandono nem sempre era definitivo e também flutuava um pouco de acordo com seus interesses comerciais. Se percebia que um determinado tema vendia bem, voltava a ele sem o menor pudor.

 

Theon Spanudis, crítico de arte muito influente na década de 1950, que publicou o primeiro livro sobre Silva, dividia a sua produção em quatro fases:

 

“A sua primeira fase caracteriza-se pelos coloridos escuros, sombrios, de atmosferas plúmbeas, cinzentas e carregadas de algo angustiante, como em vários quadros do surrealismo, e teluricamente mágicos. Uma fase triste, embora grandiosa em seu mistério e magismo(...). De 1948 em diante, a sua paleta começa a clarear. Aparecem tons rosados e azulados, tonalidades avermelhadas e quentes, verdes vivos, no início tentativamente, depois com mais segurança. Surge um elemento lírico, principalmente nas suas paisagens, desconhecido até então, que não existia na sua primeira fase. (...). A terceira é a fase pontilhista. Não sabemos com exatidão quando começou essa fase. De qualquer maneira, o seu pontilhado, como ele o chamava, não tem nada a ver com o pontilhismo de Van Gogh (...) ou com o pontilhismo europeu. Nessa fase, ele criou coisas fabulosas. Quadros que vibram com vivacidade e emotividade, verdadeiras danças de pontos coloridos, às vezes seriados, criando ritmos maravilhosos que o pontilhismo europeu nunca desenvolveu, pois seus objetivos eram completamente diferentes.(...). As características da quarta e última fase são os coloridos crus e violentos, e as formas simplificadas mais concentradas. Mais simples e mais denso. Mais primário. E, se nessa fase faltam as finuras rítmicas da fase pontilhista, espanta-nos a vivacidade dos coloridos puros e violentamente justapostos. Algo de uma pureza infantil e de maior simplificação emana dessa fase. Como que a busca do meramente essencial”.[10]

 

A exposição “José Antônio da Silva – A vida não basta”, agora apresentada na Galeria Almeida e Dale, não tem a pretensão de abarcar a produção do artista, estimada em 5 mil obras. É um recorte curatorial que elegeu alguns temas caros a Silva, excluindo outros de igual qualidade. A seleção, organizada por analogia de linguagem, é permeada por um viés cronológico que confirma em parte algumas das observações de Spanudis acima citadas. A exposição enfoca apenas a produção plástica de Silva, sem se deter nos seus livros e gravações, ou mesmo na saga da instalação do museu idealizado por ele; assuntos saborosos e de grande interesse que não cabem, entretanto, no escopo deste catálogo. [...]

 

 

 

[1] SILVA, José Antônio da. Maria Clara. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1970, p. 70.

[2] RILKE, Rainer Maria. Cartas a um Jovem Poeta. Tradução de Pedro Süssekind. Porto Alegre: L&PM, 2009. p. 9.

[3] “Como me Fiz Artista”, faixa do LP Registro do Folclore Mais Autêntico do Brasil, gravado em 1966. In SANT’ANNA, Romildo. Silva: Quadros e Livros - Um artista caipira. São Paulo: Editora Unesp, 1993, p. 35.

[4] SANT’ANNA, Romildo. Silva: Quadros e Livros - Um artista caipira. São Paulo: Editora Unesp, 1993, p. 36.

[5] Esse pintor Malagoli nada tem a ver com o artista Ado Malagoli.

[6] “Havia qualquer coisa nessa telas, um certo espírito, uma certa graça” comentava Paulo Mendes de Almeida. Folha de S. Paulo, 22 fev. 1976.

[7] SANT’ANNA, Romildo. Op Cit., 1993, p. 16.

[8] SANT’ANNA, Romildo. Op Cit., 1993, p. 24.

[9] SANT’ANNA, Romildo. Op Cit., 1993, p. 16.

[10] SPANUDIS, Theon. José Antônio da Silva. Rio - São Paulo - Porto Alegre: Livraria Kosmos Editora, 1976, p. 16 a 20.

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