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Eliseu Visconti - 150 anos

 

Ilusões Perdidas, c. 1933
Óleo sobre tela
160 x 100 cm
Coleção Particular – Fortaleza – CE

Título original “Inspiração”


 

 

 

Texto de apresentação produzido pela curadora Denise Mattar para a exposição Eliseu Visconti - 150 anos. Realizada de 29.10.2016 a 10.12.2016 na Galeria Almeida e Dale.

 

Eliseu Visconti (1866 -1944) foi um artista incomum na sua geração. Talentoso, sensível e disciplinado, ele foi o primeiro a incorporar à nossa arte as conquistas dos movimentos que libertaram as artes plásticas das rígidas imposições da Academia. Simbolismo, Impressionismo, Art-Nouveau e Pós-impressionismo influenciaram sua obra, porém foram incorporados ao seu trabalho de forma inteiramente pessoal. Criador de atmosferas, Visconti transitava com maestria entre contrastes: pintava paisagens luminosas e retratos densos, nus plenos de sensualidade e cândidas imagens do cotidiano familiar, e, em todos esses enfoques, tão diversos, deixava uma marca impalpável, que torna sua obra inconfundível.

 

A importante contribuição de Visconti para a renovação da arte brasileira, não foi, entretanto, compreendida pelos modernistas de 1922. Eles o colocaram no mesmo cesto dos artistas acadêmicos, o que, nas palavras de Mário Pedrosa foi um equívoco:

 

Foi pena que o movimento moderno brasileiro, no seu início, não tivesse tido contato com Visconti. Os seus precursores teriam tido muito que aprender com o velho artista, mais experimentado, senhor da técnica da luz, aprendida diretamente na escola do neoimpressionismo. (...) A lição de Visconti tê-lo-ia levado mais depressa a comunicar-se com a natureza, já pictoricamente filtrada através da experiência e da sensibilidade de um mestre familiarizado com os seus problemas e aberto às inovações. Tarsila, Di Cavalcanti, Portinari e outros, todos eles artistas de talento, achariam talvez na obra viscontiana aquele senso de continuidade, indispensável a todas as revoluções.[1]

 

Típica de jovens artistas, essa miopia refletiu-se na historiografia da arte, resultando num período de ostracismo da obra de Visconti, que, felizmente, já há algum tempo, vem sendo sanado.

 

Vale lembrar que esse hiato de esquecimento, embora recente, foi curto se comparado à história do artista. Visconti foi um talento precoce, sua constante presença nas premiações do Liceu de Artes e Ofícios, da Academia Imperial de Belas Artes e da Escola Nacional de Belas Artes valeu-lhe o apelido de “papa-medalhas”. Ele teve a oportunidade de ser reconhecido em vida, de viver exclusivamente de seu ofício como pintor e de criar obras públicas que até hoje nos encantam, como as decorações do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

 

Sua trajetória artística ocorreu num período de intensas transformações da sociedade brasileira, fatos que ele soube administrar à sua maneira, sempre incorporando o novo, mas sem confrontos.

 

Visconti viveu durante um período de inegável modernização da sociedade brasileira. Nascido em plena época de Guerra do Paraguai e vindo a falecer às vésperas do fim da Segunda Guerra Mundial, o artista viu o país passar de monarquia a república, testemunhou a Revolução de 1930 e a ascensão e declínio do Estado Novo. Pertencente às primeiras levas de imigrantes italianos a aportar no Brasil, protagonizou o drama coletivo de passagem do sistema escravagista para o trabalho livre. Vivenciou de perto as mudanças culturais que transformaram o Rio de Janeiro de uma cidade acanhada de 250 mil habitantes em metrópole moderna e capital irradiante. [2]

 

Essa sequência de acontecimentos no Brasil acontece paralelamente às mudanças na Europa, que Visconti vivenciou em suas longas permanências na França, inclusive durante a Primeira Guerra Mundial. A partir dos anos 1920 Visconti não mais deixaria o nosso país e seu trabalho ruma a uma plenitude luminosa e suave.

 

A exposição Eliseu Visconti - 150 anos, que agora apresentamos na Galeria Almeida e Dale, tem como objetivo traçar esse percurso na comemoração do sesquicentenário do nascimento do artista, contribuindo para a divulgação de sua obra. Sem ter a pretensão de ser uma retrospectiva, as 40 obras reunidas, traçam o percurso de Visconti, incluindo alguns trabalhos inéditos como Busto de Mulher, c. 1900, e Baixada de Vila Rica, 1924, A Música – Estudo para vitral, c. 1898, além de outros que não são vistos em público há mais de quarenta anos, como Moça no Trigal, c. 1916, e Estendendo roupa, 1922. Todo o processo de trabalho da mostra contou com a consultoria de Christina Gabaglia Penna e com o suporte do Projeto Eliseu Visconti, que através do neto do artista, Tobias Stourdzé Visconti, vem empreendendo um sério trabalho de resgate e de catalogação da obra de Visconti. Essa parceria preciosa nos permitiu acesso a muitas informações e à certeza da autenticidade dos inéditos. A eles nossos profundos agradecimentos. Não poderíamos deixar de citar também a seminal tese de doutorado A catalogação das pinturas a óleo de Eliseu d’Angelo Visconti: o estado da questão, de Mirian Nogueira Seraphim, realizada na Universidade Estadual de Campinas em 2010. A consulta a esse trabalho foi essencial para a elaboração do texto que segue.

 

 

 

[1] PEDROSA, Mario. Visconti Diante das Modernas Gerações. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 01 jan 1950. Disponível em http://www.eliseuvisconti.com.br/Site/TextosCriticos/MarioPedrosa.aspx Acesso em 17 out 2016.

 

[2] CARDOSO, Rafael. Modernidade. In CARDOSO, Rafael. Eliseu Visconti: A modernidade antecipada. Hólos Consultores Associados (org.).  Rio de Janeiro: Hólos Consultores Associados, 2012, p. 26.

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